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Fies: alunos de medicina reclamam de aumento abusivo nas mensalidades

Mudanças feitas no Fies em 2017 começam a gerar problemas aos alunos

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Reajustes de até oito vezes nas mensalidades fazem com que estudantes de medicina, beneficiados pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), não consigam mais pagar o curso. Os aumentos, segundo entrevistados pela Agência Brasil, são frutos das mudanças feitas no Fies em 2017 e que agora começam a gerar problemas.

A reportagem conversou com estudantes da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, uma das poucas instituições privadas que oferecem curso de medicina no país e que integra um dos maiores grupos de educação no Brasil. Há estudantes que viram a contribuição que pagam por mês subir de cerca de R$ 400 para mais de R$ 3 mil em apenas um semestre, durante a pandemia. Como o programa é voltado para estudantes de baixa renda, com renda familiar por pessoa de até três salários mínimos, as famílias dizem não ter condições de bancar esses valores. Os casos aguardam julgamento na Justiça Federal do Rio de Janeiro.

Entre esses estudantes, está Marta*, que começou a cursar medicina no segundo semestre de 2019. “Consegui uma boa porcentagem de financiamento [acima de 90%]. Foi a oportunidade que eu tive de fazer o que eu sempre sonhei”. No primeiro semestre do curso, pagou, por mês, R$ 430. Em 2020, no segundo semestre de medicina, esse valor passou para R$ 3,4 mil por mês. A renda familiar vem da mãe, que trabalha como balconista em uma farmácia e do pai, motorista de aplicativo. “A situação era bem difícil e ainda veio a pandemia. O trabalho deles diminuiu muito”, diz. 

O aumento foi muito acima do esperado e Marta conta que não houve nenhum tipo de aviso ou justificativa. Eles procuraram a universidade e a Caixa Econômica Federal, que opera o financiamento, e tentaram fazer um novo ajuste. “Comecei a ficar com dívida, meu nome foi para o Serasa”. Ela conseguiu negociar e a dívida foi parcelada em 18 vezes. Essas parcelas, no entanto, de acordo com a estudante, somaram-se às mensalidades, elevando o valor para mais de R$ 4 mil mensais. A família vendeu um terreno que tinha e conseguiu quitar o semestre.

No segundo semestre de 2020, no entanto, os boletos começaram a chegar, o problema voltou e o caso foi levado à Justiça. “É muito desgastante. Um sentimento de não saber do seu futuro. Estar com o seu futuro e ao mesmo tempo não estar com ele. Não tem nada certo para os próximos semestres. Acaba sendo desgastante também para meus pais”, afirma. Sem quitar o semestre anterior, os estudantes têm problemas para renovar o financiamento e, consequentemente, para fazer a matrícula e se inscrever nas disciplinas.

Felipe*, que cursa o 5º semestre, está em uma situação semelhante. “Estou com uma dívida ativa caríssima. Se sair da faculdade, ainda fico com essa dívida, não tenho como pagá-la. Ou eu consigo terminar a faculdade para poder quitá-la ou fico com essa dívida para o resto da vida”, afirma. Pelas regras do programa, caso saiam da faculdade, os estudantes precisam pagar o que receberam até o semestre em curso.

“Entrei na faculdade em 2019 com o Fies e quando fui ao banco fazer o contrato e as simulações, o gerente até brincou comigo, disse que como eu ia fazer medicina, a mensalidade não ia passar de R$ 1,2 mil. Pela minha renda e da minha família, consegui uma boa porcentagem de financiamento”, conta. O valor mensal, no entanto, subiu para mais de R$ 3 mil e o estudante não conseguiu mais pagar.

A mãe de Felipe é dona de casa e o pai, pedreiro. “Para mim, é muito importante terminar os estudos. Eu fiz o meu ensino fundamental e médio em escola pública. Foi uma conquista minha, não fiz cursinho porque não conseguia pagar, continuei os estudos em casa. Trabalhava e estudava. Conseguir concluir o curso é ser a primeira pessoa da minha família a concluir a faculdade”, diz.

Casos na Justiça

A advogada Claudiceia Nascimento Rocha, que representa 31 estudantes de medicina, considera os aumentos abusivos, pois não levaram em consideração a renda familiar dos estudantes. “O Fies foi criado para facilitar que alunos de baixa renda conseguissem se formar em cursos caros, aumentando a quantidade de médicos, de engenheiros, a intenção foi essa. Só que hoje, o programa está totalmente desfigurado do projeto inicial porque os alunos não têm mais como arcar com a coparticipação”, diz.

Os processos envolvem tanto a Estácio, que segundo a advogada não está sendo transparente em relação aos valores, quanto a própria Caixa e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), autarquia ligada ao Ministério da Educação (MEC), responsável pela gestão do programa.

A intenção, segundo a advogada, é que os alunos possam concluir os estudos e que sejam cobrados valores factíveis. “Os alunos hoje não vão se formar e vão ter uma dívida antecipada do Fies que não conseguirão pagar”, defende.

Fies

Criado em 1999, o Fies oferece financiamento a estudantes de baixa renda em instituições particulares de ensino a condições mais favoráveis que as de mercado. O programa, que chegou a firmar, em 2014, mais de 732 mil contratos, sofreu, desde 2015, uma série de mudanças e enxugamentos. Em 2019, foram cerca de 67 mil ingressantes no ensino superior pelo Fies, segundo o último Censo da Educação Superior. 

Um dos principais motivos para as mudanças nas regras do Fies, de acordo com gestões anteriores do MEC, foi a alta inadimplência, ou seja, estudantes que contratam o financiamento e não quitam as dívidas após formados. O percentual de inadimplência registrado pelo programa chegou a atingir mais de 40%, de acordo com dados do MEC de 2018.

No final de 2017, foi lançado o Novo Fies, que passou a dividir o programa em diferentes modalidades e começou a ser operado em 2018. Os estudantes passaram a contribuir mais, ainda durante os cursos, com uma coparticipação, para evitar prejuízos posteriores aos cofres públicos.

O chamado Fies juro zero, financiado pelo governo federal, é voltado para alunos cuja renda familiar bruta mensal por pessoa não ultrapasse três salários mínimos. Os estudantes entrevistados são beneficiados por essa modalidade. O percentual de financiamento é definido de acordo com o comprometimento da renda familiar e os valores cobrados pela instituição de ensino superior. O Novo Fies tem também um teto de financiamento, que é de cerca de R$ 43 mil por semestre, que corresponde a mais ou menos R$ 7 mil por mês. 

Hoje, o estudante beneficiado precisa pagar, mensalmente, o valor da coparticipação, que corresponde à parcela dos encargos educacionais não financiada, diretamente ao agente financeiro, ou seja, à Caixa. Se um estudante obtém, por exemplo, um financiamento de 90%, precisa pagar 10% da mensalidade ainda durante o curso. Caso o preço do curso exceda o limite de financiamento do Fies, cabe ao estudante pagar também essa diferença.

Estácio

Segundo a Estácio, o aumento do valor pago pelos estudantes de medicina vem dessa diferença entre o teto do Fies e a mensalidade do curso e não há, por parte da instituição, cobranças abusivas.

Procurada pela Agência Brasil, a Estácio diz que, até 2019, a instituição, que era a interlocutora financeira, cobrava um valor de semestralidade para os alunos Fies inferior ao praticado para os demais estudantes do curso e limitado ao teto estabelecido pelo programa de financiamento, que é de cerca de R$ 43 mil. Os beneficiados pelo Fies pagavam somente o valor não financiado por mês. “Era uma liberalidade da instituição precificar sua semestralidade de forma a contribuir para que seus alunos Fies conseguissem manter os seus estudos. Esta prática não é comum nos cursos de medicina”, diz, em nota.

A Estácio afirma que, a partir do primeiro semestre de 2020, devido a uma mudança no sistema aplicado pelo Fies, a Caixa passou a ser a responsável pela cobrança financeira do aluno. Agora, quem emite o boleto é o banco e não mais a instituição de ensino. Com isso, começou a ser cobrado o valor praticado para os demais alunos de cerca de R$ 60 mil por semestre.

“Os boletos passaram a ser emitidos pelo banco, considerando a faixa real da semestralidade praticada pela IES [Instituições de Ensino Superior] para todos os seus alunos de medicina, ocasionando a diferença de valor citada. É importante lembrar que o estudante de medicina tem ciência dos valores ao aditar o contrato com o Fies no começo de cada período”.

A universidade afirma ainda que está avaliando os casos dessa natureza e estudando soluções que visam amparar os estudantes nos próximos ciclos. 

Programa esvaziado

Para o diretor executivo da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), Sólon Caldas, o programa está ficando cada vez mais inviável tanto para novos alunos quanto para os que já estão matriculados. Segundo ele, os casos dos estudantes de medicina não são isolados. 

Na avaliação de Caldas, as mudanças no Fies fizeram com que o programa perdesse o caráter social, que possibilitava o ingresso de estudantes das classes C, D e E no ensino superior, e passasse a ter um caráter financeiro. O diretor executivo da Abmes diz que, quando as mudanças estavam sendo discutidas no Congresso Nacional, as instituições alertaram para problemas futuros como uma maior dificuldade dos estudantes em pagarem os encargos, o que está ocorrendo agora. 

Segundo Caldas, o programa deixou de ser vantajoso para os alunos. “Os estudantes preferem ter uma bolsa de estudos de 30%, 40% [ofertada pela própria instituição] do que contratar o financiamento estudantil”, diz. No caso dos cursos de medicina, que são mais caros e concorridos que os demais, ele explica que, geralmente, não há oferta de bolsas e os estudantes acabam recorrendo ao financiamento.

A questão do endividamento e da evasão dos alunos é uma preocupação das instituições de ensino particulares que detêm hoje pouco mais de 75% de todas as matrículas do ensino superior do país.

No ano passado, entidades representantes das instituições particulares de ensino assinaram um ofício encaminhado ao governo federal chamando atenção para “o extremo risco de evasão de estudantes, especialmente nos cursos da área da saúde, com um reflexo prejudicial não só em toda economia, mas também diretamente no enfrentamento da própria pandemia no âmbito das ações estratégicas do governo federal”.

Segundo o documento, a crise provocada pela pandemia da covid-19 “está atingindo duramente os estudantes de menor renda matriculados no ensino superior particular onde juntos eles representam 65% do total dos alunos, ou seja, cerca de 4,142 milhões de estudantes pertencentes às classes C, D, E”.

Caldas explica que o pedido é por um Fies Emergencial que cubra até 100% da mensalidade – o que não é mais praticado pelo Fies – de acordo com as necessidades de cada estudante. “A gente pediu muito ao governo, sobretudo na pandemia, que pudesse oferecer um Fies Emergencial para socorrer vários alunos que não estão conseguindo se manter matriculados nem ingressar no ensino superior”, diz.

FNDE

Procurado, o FNDE disse que iniciou um estudo para avaliação das mensalidades dos cursos de medicina, uma vez que recebeu um elevado número de demandas, em especial, de estudantes da Estácio.

Sobre possíveis mudanças para que o programa se torne mais viável a alunos carentes, o FNDE diz que eventuais distorções no Fies “são discutidos entre MEC, FNDE e CG-FIES [Comitê Gestor do Fies] de forma que o programa contribua cada vez mais para o acesso e permanência dos estudantes no ensino superior que não podem arcar com os encargos educacionais, alinhado com o previsto no Plano Nacional de Educação”. 

*Os nomes foram trocados a pedido dos estudantes 

Por: Agência Brasil

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Efeitos cognitivos da depressão

A depressão é uma doença crônica e degenerativa que atinge milhões de pessoas, destarte, a mesma chega a ser uma patologia complexa para ser diagnósticada, por mais que seja feito por um profissional. Mas e você ? Sabe os efeitos cognitivos da depressão?

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Se você é familiarizado com as histórias de Harry Potter, personagem de J.K. Rowling, deve se lembrar de um tipo de criatura sombria e amedrontadora, cuja própria presença retira a alegria do ambiente e cujo principal feito é o de sugar as memórias mais felizes de uma pessoa deixando-a apática, lenta e triste. Lembrou? Essas criaturas mágicas são chamadas de dementadores. A editora-chefe da revista mente e cérebro, Gláucia Leal, numa edição exclusiva sobre a depressão, utiliza a figura dos dementadores para ilustrar esse distúrbio mental. De fato, os dementadores apresentam muitas características em comum com a depressão, como a extrema angústia, o desespero e a infelicidade que ambos trazem. No entanto, neste artigo iremos tratar de outros efeitos da depressão, os impactos cognitivos do distúrbio, ou seja, a ação da depressão sobre nossa memória, atenção e sobre nossa tomada de decisões.

Em “Harry Potter e a ordem da Fênix”, o quinto livro da saga, Duda Dursley, primo e irmão adotivo de Harry, é atacado por um dementador, porém há um detalhe, Duda é um trouxa (ou seja, ele não é um bruxo) e os efeitos do “beijo” do dementador são devastadores para o pobre colega não bruxo. Duda, além de extremamente triste e desolado, encontra-se temporariamente incapaz de falar, letárgico, com problemas de memória, inapto para tomar suas próprias decisões e impossibilitado de ter um foco de atenção duradouro chegando ao ponto de ser levado ao hospital por seus pais.

Foto:FREEPIK/stories

A depressão tem efeitos, além daqueles mais conhecidos, como a angústia profunda. Esse distúrbio do humor atinge também nossas funções cognitivas e motoras. A doutora Marcia Rozenthal, da UFRJ, relata “Várias são as queixas neurocognitivas presentes durante o estado depressivo, incluindo redução das habilidades atentiva, mnêmica e lentidão do pensamento”. Desde a atenção, a memória e até a rapidez com que se pensa podem ser prejudicadas num quadro de depressão e essas disfunções cognitivas podem se manter mesmo durante as fases assintomáticas.

No que tange às funções cognitivas, uma das mais facilmente observadas por um profissional da saúde é a atenção. Um efeito observado em todos os tipos de depressão é a alteração da atenção sustentada, ou seja, da capacidade de manter o foco de atenção. A intensidade dessas alterações varia conforme a gravidade do quadro depressivo, mas podem persistir mesmo após a diminuição dos sintomas.

Nossa memória também pode ser afetada em distúrbios do humor como a depressão. A psicóloga Patrícia Porto afirma em seu artigo “Alterações neuropsicológicas associadas à depressão” que a aquisição e a evocação de memórias estão entre os domínios cognitivos mais comumente afetados pelo quadro depressivo. A Dra. Porto também relata que os déficits de memória estão diretamente relacionados à depressão em idosos e principalmente em pacientes com histórico de depressão crônica ou recorrente.

Pessoas deprimidas geralmente têm dificuldades para tomar decisões, provavelmente pelo fato de que nossas emoções têm um papel importante nesse processo, e num indivíduo deprimido seu emocional encontra-se abalado. A tomada de decisões é mais um domínio cognitivo desequilibrado por esse distúrbio e pacientes com depressão apresentam-se mais lentos no processo de deliberação, além de ser comum a falta de confiança no seu próprio posicionamento, como é demonstrado pelo pesquisador FC Miller em seu estudo Decision making cognition in mania and depression (Cognição da tomada de decisão em mania e depressão), de 2001.

Mesmo com tamanha severidade, existem algu mas luzes no fim do túnel. Existem várias formas de tratar os déficits cognitivos advindos da depressão, desde medicamentos e exercícios cognitivos até a psicoterapia e a meditação.

Estilos de vida saudáveis, com a prática de exercícios físicos, a socialização e as dietas balanceadas podem parecer figurinhas repetidas, mas são, sim, métodos que mantêm cérebro e mente sãos. Então, não deixe de bater aquela bola com seus amigos nas tardes de domingo, sair para dançar ou de frequentar aquele clube do livro.

Por: Dr. Tiago Pereira Damaceno

MPIInstituto de Medicina e Psicologia Integradas

RT: Dalton Garcia Leão CRM 4453

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Brasil

BC avança nas discussões para a criação da moeda digital brasileira

Real Digital pretende dar eficiência às transações financeiras

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Foto: Rayra Paiva Franco/O Panorama

Influenciado pelas inovações proporcionadas pelos ambientes digitais para as intermediações financeiras, o Banco Central está avançando nas discussões que visam a criação e a implantação da moeda digital brasileira – no caso, o Real Digital. Para tanto, inaugurou hoje (29) uma série de webinars que vai tratar do assunto, com a palestra Potenciais do Real em formato digital. Este, o primeiro dos sete encontros previstos durante o segundo semestre, teve como palestrante o professor Robert Townsend, do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Ele participa do projeto de criação do dólar digital.

A ideia do Banco Central brasileiro é a de “estabelecer as bases para o eventual desenvolvimento de uma CBDC [Central Bank Digital Currency] que venha a acompanhar o dinamismo da evolução tecnológica da economia brasileira e a aumentar a eficiência do sistema de pagamentos de varejo”. Dessa forma, pretende “contribuir para o surgimento de novos modelos de negócio e de outras inovações baseadas nos avanços tecnológicos”, favorecendo a participação do país em outros cenários econômicos e aumentando sua eficiência nas transações trans fronteiriças.

Moedas digitais X criptomoedas

Para melhor compreensão sobre o tema, a autoridade monetária brasileira esclarece que moedas digitais são muito diferentes de criptomoedas. Em maio, ao anunciar as diretrizes para a criação da moeda digital brasileira, o coordenador dos trabalhos sobre a moeda digital do Banco Central, Fabio Araujo, explicou essa diferença.

“Os criptoativos, como o Bitcoin, não detém as características de uma moeda, mas sim de um ativo. A opinião do Banco Central sobre criptoativos continua a mesma: esses são ativos arriscados, não regulados pelo Banco Central, e devem ser tratados com cautela pelo público”, detalhou. Já a CBDC é uma nova forma de representação da moeda já emitida pela autoridade monetária nacional. Ou seja, faz parte da política monetária do país de emissão e conta com a garantia dada por essa política.

Papel do banco público

Na palestra apresentada hoje, o professor Robert Townsend seguiu a mesma linha. “O papel do banco publico vai além do lucro e abrange o bem-estar da sociedade como um todo”, disse o professor do MIT ao ressaltar a importância de “regras, esquema e desempenho do sistema financeiro” para que esse objetivo seja atingido. “A CBDC é uma outra opção para substituir o papel-moeda, podendo ter moedas estáveis com apoio da moeda bancária, de forma a garantir que o dinheiro é real. Dinheiro público e privado [como é o caso das criptomoedas] podem coexistir de forma saudável nesse ambiente”, disse.

Ele, no entanto, pondera que essas “moedas privadas” devem ser negociadas em mercados secundários. “A vantagem dos contratos inteligentes, sem usar terceira parte, é a de possibilitar um novo aporte de intermediação financeira. Em alguns aspectos é fácil de monitorar, no sentido de que os acordos são todos codificados e existentes, antes de tudo ser deslanchado”. “O futuro chegou e o sistema financeiro sempre continuará evoluindo com inovações muitas vezes desejáveis. Então é papel tanto de um banco central como das moedas digitais evoluir. Temos de estar prontos e pensar sobre isso, em vez de responder a coisas que aconteçam sequencialmente”, acrescentou.

De acordo com o professor, entre as regras a serem seguidas pelos bancos centrais está a de planejar um sistema financeiro com rastreamento, criptografia, computação multipartidária e privacidade. “Há um papel para o setor público no design de infraestrutura de plataforma aberta, o que inclui programabilidade que potencialmente permita à CBDC [moedas digitais fornecidas por bancos centrais] funcionar”.

Infraestrutura

Professor da Escola de Negócios da Fundação Getúlio Vargas, Eduardo Diniz explicou de forma didática alguns dos processos que devem ser observados para a “construção da parte técnica” da moeda digital brasileira. “Quando se tem a moeda em papel, a Casa da Moeda constrói um papel físico. Há toda uma infraestrutura técnica para a produção dessa moeda, com máquinas, impressoras, tintas. Essas camadas operam de forma conjunta para fazer o sistema funcionar. O que vemos agora é a transposição disso para o mundo digital. Você continuará tendo controle, regras e funcionamento do sistema de pagamento. Isso continuará na mão do BC. Mas terá uma infraestrutura para validar que aquilo que está circulando é, de fato, [moeda] Real”.

Ele acrescenta que, quando se migra de um sistema para ou outro, mantém-se “a mesma estrutura lógica do sistema de pagamento, com o BC tendo controle sobre as regras de funcionamento do mercado; tendo mecanismos de validação necessários para dizer que o que está sendo operado está sendo feito de forma confiável para a população; e também, no nível do código, a tecnologia que será implementada e executada”.

Complementariedade

Diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, João Manoel Pinho de Mello disse que o objetivo do BC, ao estudar modelos e discutir os meios pelos quais se adotará tal tecnologia, poderá auxiliar a autoridade monetária brasileira “na gestão da moeda em suas três funções: reserva de valor, unidade de conta e meio de pagamento, considerando um cenário de inovação e de maior digitalização de nossa sociedade”.

“Portanto, não é um debate de substituição, mas de complementariedade do meio digital para cobrir lacunas e superar fricções que a moeda tradicional tem dificuldade de superar, em um equilíbrio no qual os benefícios de adoção de uma CBDC superam os riscos e os custos”, argumentou.

“De forma geral, entendemos que o uso da CBDC se dará nas situações em que ela for capaz de trazer maiores eficiência e transparência para as transações, seja sob a ótica do varejo ou do seu uso pelos agentes que compõem a indústria financeira e de pagamentos, que chamamos de atacado. Além disso, CBDCs podem trazer, se bem desenhadas, oportunidades para ampliar a inclusão financeira e para melhorar a experiência e diminuir o custo e tempo de pagamentos trans-fronteiriços”, acrescentou.

De acordo com o diretor do BC, é preciso reconhecer que há que se tomar “extremo cuidado” na escolha do desenho e das tecnologias que serão utilizadas, de forma a evitar que a moeda digital a ser criada desrespeite a lei geral de proteção de dados, facilite corridas bancárias ou seja vulnerável a ataques cibernéticos.

“Além disso, o uso trans-fronteiriço dessas moedas deve ter especial consideração no desenho da solução, de modo a evitar substituições indesejadas da moeda soberana de um país pela de outro”, complementou.

Desenvolvimento gradual

Ele lembrou que a pandemia acelerou transformações na forma que a sociedade transaciona, com o crescente uso dos meios digitais de pagamento. “Hoje, o celular se tornou peça fundamental nos pagamentos, trazendo novos termos para nosso cotidiano, como QR Code ou pagamento por aproximação. Nessas condições, temos a oportunidade de debater o assunto de CBDC como ferramenta complementar, para trazer mais eficiência e inclusão”.

Ainda segundo Mello, o desenvolvimento da moeda digital brasileira tem de ser gradual, de forma que permita ao regulador avaliar os riscos e benefícios dessa inovação, definindo adequadamente a regulação necessária.

“Posso afirmar que a estratégia do regulador é a de estimular reformas estruturais que lidam com falhas de mercado, com potencial de promoverem benefícios de longo prazo para nossa sociedade. O BC busca, nesse contexto de inovações, permitir que os consumidores se aproveitem, de forma segura, dos enormes benefícios que as mudanças tecnológicas trarão, ao passo que irá zelar pela solidez prudencial e pela proteção dos dados dos cidadãos e das empresas”, completou.

Por: Agência Brasil

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Brasil

Tóquio: no sétimo dia de competição, Brasil conquista duas medalhas

Prata veio com a ginasta Rebeca Andrade e bronze com Mayra Aguiar

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Foto: Lindsey Wasson

No sétimo dia de competições dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, os destaques para o Brasil vieram com duas medalhas de atletas mulheres. A judoca Mayra Aguiar conquistou bronze e a ginasta Rebeca Andrade faturou prata na ginástica artística. No vôlei, a equipe feminina também fez bonito e engatou a terceira vitória seguida.

Ginástica artística

A paulista Rebeca Andrade, de 22 anos, entrou para a história da ginástica artística do Brasil ao conquistar a prata no individual nos Jogos de Tóquio, a primeira medalha olímpica feminina do país na modalidade, na manhã desta quinta-feira (29). Rebeca somou, ao final dos quatro aparelhos, 57.298 pontos, ficando atrás somente da norte-americana Sunisa Lee (57.433) e à frente de Angelina Melnikova, do Comitê Olìmpico Russo (ROC, sigla em inglês) que totalizou 57.199. A brasileira ainda tem chances reais de conquistar mais medalhas nas disputas de salto e solo a partir de domingo (1º de agosto). 

Judô

A gaúcha Mayra Aguiar conquistou feito inédito na manhã de hoje, após conquistar a medalha de bronze na categoria meio-pesado (até 78kg). 

A medalha do Brasil veio com a vitória contra a sul-coreana Hyunji Yoon, que foi imobilizada por 20 segundos no Nippon Budokan, templo das artes marciais na capital japonesa. A judoca se tornou a primeira mulher a conquistar três medalhas olímpicas em um esporte individual. Ela já havia levado o bronze nos Jogos de Londres (2012) e na Rio 2016.

Mayra Aguiar mostra medalha de bronze conquistada no judô na Olimpíada de Tóquio
A judoca Mayra Aguiar exibe medalha de bronze conquistada – Reuters/Sergio Perez/Direitos Reservados

Vôlei

A seleção brasileira de voleibol feminino conquistou nesta quinta-feira a terceira vitória consecutiva. As brasileiras venceram o Japão por 3 sets a 0, com parciais 25/16, 25/18 e 26/24. A partida foi realizada na Arena de Ariake, na capital Tóquio. Invicto na competição, o Brasil já havia derrotado a Coreia do Sul e a República Dominicana.

Com este resultado, a seleção brasileira está na segunda colocação do Grupo A. Na próxima rodada, no sábado (31), o Brasil vai encarar as líderes do grupo às 4h25 (horário de Brasília), na Arena de Ariake.

As brasileiras venceram o Japão por 3 sets a 0, com parciais 25/16, 25/18 e 26/24.
As brasileiras venceram as anfitriãs da Olimpíada – Wander Roberto/COB/Direitos Reservados

Vôlei de praia

Nesta quinta-feira, o Brasil avançou para as oitavas de final no vôlei de praia feminino e masculino. A dupla Alison e Álvaro Filho venceu os holandeses Robert Meeuwsen e Alexander Brouwer por 2 sets a 0, com parciais de 21/14 e 24/22. A partida foi disputada no Parque Shiozake, na capital japonesa. O triunfo selou a classificação dos brasileiros às oitavas de final. Com a vitória, eles vão aguardar os resultados das partidas de amanhã para saber quem enfrentarão na fase mata-mata. 

No feminino, Ágatha e Duda sabiam que precisavam vencer para continuar em busca da medalha olímpica no vôlei de praia. E a dupla brasileira conseguiu o objetivo nesta quinta-feira, também no Parque Shiozake, quando derrotou as canadenses Heather Bansley e Brandie Wilkerson por 2 sets a 0, com parciais de 21/18 e 21/18.

Os próximos jogos da dupla feminina brasileira também dependem dos resultados das partidas de sexta-feira. 

 Ágatha e Duda vencem Bansley e Brandie
Ágatha e Duda vencem Bansley e Brandie – Reuters/PILAR OLIVARES

Canoagem

O Brasil começou bem a madrugada desta quinta-feira com a atleta Ana Sátila chegando, pela primeira vez na história, à uma final olímpica da canoagem slalom. A medalha na prova da canoa (C1), no entanto, não veio: a mineira terminou na 10ª posição (tempo de 164s71), após ser punida por não ter cruzado uma das 25 balizas do circuito. O ouro ficou com a australiana Jessica Fox (105s04), a prata com a britânica Mallory Franklin (108s68) e o bronze com a alemã Andrea Herzog (111s13). 

Mesmo fora do pódio, Sátila também protagonizou outro feito inédito: tornou-se a única mulher do país a brigar por medalhas na modalidade. O Brasil conta ainda com Pepê Gonçalves, classificado para a semifinal no caiaque (K1) às 2h (horário de Brasília) desta sexta (30). A final do K1 será na sequência, às 4h. 

Ana Sátila termina em 10º lugar na final da canoa (C1) em Tóquio 2020 - Olimpíada
Ana Sátila termina em 10º lugar na final da canoa (C1) em Tóquio 2020 – Olimpíada – Gaspar Nóbrega/COB/Direitos Reservados

Handball

O Brasil foi superado pela Espanha por 27 a 23, hoje no Ginásio Nacional Yoyogi, em jogo válido pela 3ª rodada do Grupo B do torneio de handebol feminino. Essa foi a primeira derrota da equipe comandada pelo técnico Jorge Dueñas, que empatou em 24 a 24 na estreia com o Comitê Olímpico Russo e venceu a Hungria por 33 a 27 na rodada seguinte.

Na próxima rodada, o Brasil pega a Suécia na madrugada do próximo sábado (31), a partir das 04h15 (horário de Brasília).

Ciclismo BMX

O brasileiro Renato Rezende avançou às semifinais do ciclismo BMX na Olimpíada de Tóquio. Na noite desta quarta-feira (28), no Parque de Esporte Urbanos de Ariake, o carioca fez o terceiro melhor tempo (40s98) na primeira bateria, ficando atrás apenas de dois holandeses, Twan van Gendt e Niek Kimmann. Assim, o atleta está garantido na semifinal prevista para as 22h desta quinta-feira.

Na prova feminina, a brasileira Priscilla Stevaux ficou na sexta posição da chave e não conseguiu passar das quartas.

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Renato Rezende compete em Tóquio 2020 – Wander Roberto/COB/Direitos Reservados

Remo

O remador carioca Lucas Verthein ficou fora da final do skiff simples na Olimpíada de Tóquio (Japão). Nesta quarta-feira, o brasileiro ficou em quinto lugar na primeira semifinal da prova, realizada no Canal Sea Forest, com tempo de 7min02s87. Para se classificar à disputa por medalhas, ele precisava chegar entre os três primeiros.

Verthein compete nesta quinta-feira, às 21h15 (horário de Brasília), na final B, que define a classificação do sétimo ao 12º lugar. A participação do remador, que disputa a primeira Olimpíada da carreira, já é a melhor de um brasileiro no skiff simples.

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Lucas Verthein não se classificou para a final do Skiff simples do remo – Gaspar Nóbrega/COB/Direitos Reservados

Natação

O carioca Guilherme Costa não conseguiu repetir o ritmo da fase eliminatória e chegou na oitava e última posição na final dos 800 metros (m) livres da Olimpíada de Tóquio. O brasileiro concluiu a prova, no Centro Aquático da capital japonesa, em 7min53s31, seis segundos acima da marca atingida na semifinal, que lhe rendeu o recorde sul-americano. Na sexta-feira (30), o carioca disputa os 1.500 metros livres.

Guilherme virou os primeiros 50 metros na segunda posição, mas não conseguiu acompanhar o ritmo dos demais nadadores. O carioca lamentou a queda de rendimento e revelou ter se sentido cansado no início da prova.

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Na sexta-feira, o carioca disputa os 1.500 metros livres – Satiro Sodré/SSPress/CBDA/Direitos Reservados

Rugby de 7

A seleção brasileira feminina de rugby de 7 estreou na Olimpíada, na noite desta quarta-feira (28) no Estádio de Tóquio, perdendo para o Canadá por 33 a 0. Em seguida, às 5h de quinta-feira, as Yaras, como é conhecida a equipe nacional de rugby, enfrentou a França e perdeu por 40 a 5, no grupo B da competição.

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Brasil estreou contra o Canadá em Tóquio – Gaspar Nóbrega/COB/Direitos Reservados

Tênis

O tenista sérvio Novak Djokovic deu mais um passo rumo a um histórico Golden Slam (vencer o Aberto da Austrália, Roland Garros, Wimbledon, o US Open e os Jogos Olímpicos na mesma temporada) nesta quarta-feira, avançando para as quartas de final do torneio de simples dos Jogos de Tóquio (Japão), enquanto outros competidores reclamaram das condições de calor e umidade.

Nas duplas mistas, Djokovic e Nina Stojanovic venceram a dupla brasileira formada por Marcelo Melo e Luisa Stefani por 2 sets a 0, parciais de 6-3 e 6-4, pela primeira rodada.

Recepção no Brasil

A mais jovem medalhista olímpica do Brasil, Rayssa Leal, a Fadinha chegou ontem ao país e preferiu cancelar uma recepção com fãs em sua cidade natal, Imperatriz, no Maranhão, para evitar aglomerações durante a pandemia de covid-19. Ela disse que os próximos dias serão dedicados a sua família.

Covid-19

O norte-americano bicampeão mundial do salto com vara Sam Kendricks e o rival German Chiaraviglio, da Argentina, foram excluídos das Olimpíadas nesta quinta-feira, após teste positivo para covid-19, em meio ao aumento dos casos na cidade-sede dos Jogos.

Os casos diários em todo o país chegaram a 10 mil pela primeira vez, informou a mídia japonesa.

Sam Kendricks compete na Diamond League em Estocolmo - atleta testa positivo para covid-19 em 29/07/2021 e está fora de Tóquio 2020 - Olimpíada
Sam Kendricks testou positivo para covid-19 e está fora da Olimpíada. Na imagem, ele compete na Diamond League em – TT News Agency via REUTERS/Christine Olsson/tt/Direitos Reservados

Estreia nesta sexta-feira

A programação do atletismo na Olimpíada de Tóquio terá estreia do novo revezamento 4x100m misto amanhã, no qual equipes de dois homens e duas mulheres competirão pela medalha de ouro, oferecendo imprevisibilidade e intrigantes combinações aos torcedores.

O nível de imprevisibilidade da corrida ocorre pois não há regras de gênero definindo a ordem dos atletas na corrida. A surpresa em relação à ordem dos atletas promete manter os torcedores tentando adivinhar ao longo do evento, embora a formação homem-mulher-mulher-homem seja a favorita da maioria das equipes.

Treino do atletismo misto antes dos Jogos.
Treino do atletismo misto antes dos Jogos – Wander Roberto/COB/Direitos Reservados

Por: Agência Brasil

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